Tuesday, January 29, 2008

Situação Inusitada

A vida de professor é uma aventura, talvez isto me tenha atraído para esta nobre profissão ou, sei lá, pela tentativa de corrigir alguma antiga frustração com ex-mestres, mas sobretudo porque gosto de ensinar, sempre gostei de explicar coisas a outras pessoas.

Lembro-me de que para estudar geografia e ‘decorar’ aqueles nomes, de que não me lembro mais, ia à noite ao quarto de meus pais, quando estava lá pelos 9 anos de idade, para explicar-lhes o nome dos estados e suas capitais. Que noite, para eles!

Uma das situações que causam grande expectativa aos mestres, mesmo aos mais tarimbados depois de anos na estrada do ensino, é o início de um novo período de aulas, principalmente, com um novo conjunto de alunos.
As questões que, usualmente, surgem são: será que a turma é ‘boa’, ou seja, participativa, atenta, interessada; creio que estas são as qualidades mínimas a se esperar de quem está em uma escola, principalmente por aqueles que pagam para ‘aprender’.

Lá estava eu, iniciando naquela que para mim era uma nova escola, um novo ambiente, novos colegas de profissão; será que são boa gente? Será fácil a integração? E os alunos, qual a cultura estudantil deste lugar?

Inúmeras questões vieram à cabeça, enquanto subia as escadarias e, ao mesmo tempo, ao observar os tipos às entradas das salas, suas posturas, vestimentas e, então, cheguei à minha classe.

- Olá, boa noite!

Educadamente, mas indicando a presença e já buscando estabelecer um ambiente sob controle; geralmente, os professores assumem seu posto frente ao timão (apenas citando por força de expressão), ou seja, postados atrás da mesa de trabalho, organizando as coisas e, atentamente, observando os alunos, e vice-versa, para encontrar aqueles pontos de empatia, super-importantes ao exercício docente.

Inusitadamente, iniciaram-se pequenos risos, uma movimentação estranha, uns voltaram-se aos outros, comentários em meio tom, aquele ‘buchicho’ típico das brincadeiras de salas de aula.
Subitamente um aluno se levanta plácido, como se acabasse de ver um fantasma, com olhar fixo em mim, imóvel. Todos os sons cessaram e um ar de expectativa invadiu o ambiente.

Pasmo, com o coração saltitando inesperadamente, a adrenalina estimulando as percepções e, ao mesmo tempo, quase sem controle motor, comecei a levantar encarando aquele ..., ou eu mesmo, “será que sou eu?”, pensei, mas eu nunca me vi assim antes; “será que não me falaram?”

Lá estava meu sósia, ou talvez um irmão gêmeo. Como é assustador se ver em outro.
Todos os demais alunos parados, aguardando para ver o desenrolar da situação inusitada, creio que para todos nós.

Por um tempo, que pareceu tão longo, o silêncio imperou.

Buscando forças onde não mais havia, fiz a única coisa plausível para o momento: comecei a rir... Todos, como que aliviados, também começaram a sorrir e, aquele lindo aluno, esboçou um sorriso mesclado com admiração, espanto, ou sei lá o quê.

Situação mais ou menos controlada, procurei sentar e chamei o sósia à minha mesa para, em particular, investigar, talvez, algum passado em comum (que Deus me perdoe!).
Felizmente, não houve intercambio genético anterior, pois as árvores genealógicas jamais se cruzaram, de forma que, por um acaso da natureza, estávamos lá, unidos por uma circunstância da vida.

O ano decorreu com a normalidade corriqueira, com a diferença de que sempre o mencionavam como meu primo, às vezes como meu filho e, inevitavelmente, sempre os demais aspiravam algum benefício avaliativo para com o meu parecido, afinal éramos tão iguais.

A verdade é que a experiência única causou-me cicatrizes históricas na memória e, vez por outra, me lembro daquele momento, agora hilário, mas surpreendente na ocasião. Quando me recordo, onde estiver, olho ao redor, procuro, observo se ele ou outro similar não está por perto, pois a vida sempre nos prega surpresas.

Nunca mais o vi, porém estou certo de que deve ter tido sucesso na vida, afinal além de ser meu ex-aluno, ele possuía algo de excepcional: parecia-se comigo!

1 comment:

Dan said...

bom post professor, a questão é.. foi real?


abc Danilo